A máquina sabe ouvir? Inteligência artificial, escuta pedagógica e (in)visibilidades na educação insular

Autores

  • Jackson Morais Barcelos Secretaria do Estado de Educação do Paraná https://orcid.org/0009-0002-7849-8198
  • Helena Midori Kashiwagi da Rocha Universidade Federal do Paraná - UFP

DOI:

https://doi.org/10.30905/rde.v10i1.1070

Palavras-chave:

Inteligência artificial, Escuta pedagógica, Educação insular, Invisibilidades, Cultura digital

Resumo

O avanço das tecnologias de inteligência artificial generativa tem reconfigurado modos de ensinar, aprender e pesquisar. Em territórios insulares e periféricos, como comunidades caiçaras do litoral paranaense, sua presença coloca questões que extrapolam a inovação e alcançam dimensões ético-pedagógicas. Este artigo interroga os limites da escuta algorítmica a partir da provocação: a máquina é capaz de ouvir? Desenvolve-se uma análise crítica das (in)visibilidades associadas ao uso da IA generativa em contextos de baixa conectividade e forte enraizamento cultural, nos quais a escuta pedagógica assume contornos de resistência e pertencimento. Com abordagem qualitativa (cartografia social e pedagogia da escuta), realizou-se pesquisa de campo no Colégio Estadual do Campo Ilha Rasa (Guaraqueçaba-PR), em maio de 2025, por meio de roda de conversa gravada com 5 professores, 11 estudantes (8º ano e 2º ano do Ensino Médio), 1 pedagoga e 1 diretor. Os resultados indicam que: (i) conectividade irregular e infraestrutura limitada condicionam o uso pedagógico da IA ampliando assimetrias; (ii) docentes e estudantes acionam estratégias híbridas para sustentar práticas situadas; (iii) as ferramentas de IA, quando presentes, tendem a operar com baixa sensibilidade às referências territoriais, elevando riscos de homogeneização e apagamento de saberes locais. Conclui-se defendendo uma governança crítica da IA na educação, orientada pelo diálogo com os territórios e pela centralidade da escuta pedagógica.

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Biografia do Autor

Jackson Morais Barcelos, Secretaria do Estado de Educação do Paraná

Jackson Morais Barcelos é educador do campo, pesquisador e mestre em Ensino das Ciências Ambientais pela Universidade Federal do Paraná (PROFCIAMB/UFPR). Caiçara de Guaraqueçaba-PR, com raízes na comunidade tradicional do Costão, desenvolve sua atuação em territórios insulares, com foco na valorização dos saberes locais, educação contextualizada e resistência cultural das comunidades de pescadores artesanais. É graduado em Letras, História e Pedagogia pelo Centro Universitário Internacional UNINTER, e em Educação do Campo – Ciências da Natureza pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Também possui especializações em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa, História e Biologia, todas realizadas pela UNINTER. Desde 2013, atua como professor da rede estadual do Paraná, com práticas pedagógicas baseadas em temas geradores, epistemologias do território e metodologias Freirianas, voltadas à realidade das comunidades caiçaras. É idealizador do projeto Pedagogia Caiçara (www.pedagogicocaicara.com.br), espaço de articulação entre escola, cultura e território, voltado à educação do campo, extensão crítica e produção de conhecimento a partir dos modos de vida das comunidades tradicionais do litoral paranaense.

Helena Midori Kashiwagi da Rocha, Universidade Federal do Paraná - UFP

Graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Paraná (1992), Mestrado em Geografia (área Análise e Gestão Ambiental) pela Universidade Federal do Paraná (2004) e Doutorado em Geografia (área Território, Cultura e Representações) também pela Universidade Federal do Paraná (2011), com estágio de Doutorado Sanduíche na Facultad de Formación de Profesorado y Educación, Departamento Didácticas Específicas, da Universidad Autónoma de Madrid - Espanha (2010, com bolsa CAPES). Foi coordenadora do curso de graduação de Tecnologia em Gestão Imobiliária (2013 a 2017), curso de Especialização em Questão Social na Perspectiva Interdisciplinar (2011 a 2013) e na pós-graduação Mestrado Profissional em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais - PROFCIAMB UFPR (2017 a 2021). Consultora ad hoc da CAPES na Comissão preparatória da Avaliação Quadrienal da Área de Ciências Ambientais – CaCiamb (2021). Atualmente, é Professora Titular da Universidade Federal do Paraná - Setor Litoral, lecionando na graduação, especialização e mestrado; Membro da Comissão Especial de Progressão da carreira para professor Titular da UFPR; Membro do Conselho Técnico-Científico do Projeto Território Caiçara: Harmonizando direitos nas comunidades tradicionais da Ilha das Peças e do Superagui (TECA-UFPR); Coordenadora de Tutoria do Curso EaD em rede nacional do Mestrado PROFCIAMB “Água como elemento interdisciplinar do ensino nas escolas”; e, Coordenadora do Projeto de Pesquisa Educação Ambiental nas Escolas do Litoral do Paraná (com bolsa CNPq). É pesquisadora do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Litoral do Paraná (CNPq/UFPR) e professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Mestrado Profissional em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais (PROFCIAMB UFPR). Na graduação ministra as disciplinas de Planejamento Urbano, Planos Diretores e Gestão Democrática; e, Legislação Imobiliária; no Mestrado tem ministrado as disciplinas de Natureza, Cultura e Territorialidades; Áreas Naturais Especialmente Protegidas; e, Habitação e Meio Ambiente. Seus temas de pesquisa são: Planejamento Urbano, Regularização Fundiária, Urbanização Insular, Educação Ambiental nas Escolas, Populações Tradicionais Caiçaras, Territórios Educativos e Territorialidade.

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Publicado

2026-03-03

Como Citar

Morais Barcelos, J., & Midori Kashiwagi da Rocha, H. (2026). A máquina sabe ouvir? Inteligência artificial, escuta pedagógica e (in)visibilidades na educação insular. Devir Educação, 10(1), e-1070. https://doi.org/10.30905/rde.v10i1.1070

Edição

Seção

Dossiê